Quando o corpo continua em alerta mesmo sem perigo aparente

Uma leitura sobre hipervigilância, trauma e a diferença entre entender a segurança e senti-la no corpo.

Paisagem natural iluminada, remetendo a segurança e regulação do corpo

Você já se perguntou por que, mesmo quando tudo parece estar bem, seu corpo continua tenso, inquieto ou em constante estado de vigilância? Por que o coração acelera sem motivo claro, o sono não vem com facilidade, a respiração parece curta ou uma sensação de medo surge mesmo em situações aparentemente seguras?

Do ponto de vista da Somatic Experiencing® (SE), abordagem criada por Peter Levine a partir dos estudos sobre trauma, e também da neurofisiologia do sistema nervoso, essas reações não significam que há algo errado com você. Muitas vezes, elas revelam que o seu corpo está tentando lidar com experiências de ameaça que não foram completamente processadas.

O corpo não esquece o que viveu

Quando enfrentamos uma situação de perigo, seja um acidente, uma perda, uma experiência de violência, um procedimento médico difícil ou até situações prolongadas de estresse e insegurança, nosso sistema nervoso autônomo entra em ação para garantir a sobrevivência.

Ele mobiliza uma série de respostas automáticas: aumento dos batimentos cardíacos, maior tensão muscular, alteração da respiração, aumento da atenção ao ambiente e liberação de hormônios relacionados ao estresse. Essas reações têm uma função importante: preparar o organismo para lutar, fugir ou, quando nenhuma dessas possibilidades é viável, entrar em um estado de imobilização.

O problema não está na resposta de proteção em si. Ela é essencial para a vida. A dificuldade aparece quando, após o término da situação ameaçadora, o sistema nervoso não consegue reconhecer plenamente que o perigo passou.

É como se o corpo dissesse: “Eu sei que agora estou seguro, mas ainda não consigo sentir que estou seguro.”

O papel da neurocepção: quando o sistema nervoso avalia o mundo

A neurociência, especialmente por meio da Teoria Polivagal desenvolvida por Stephen Porges, trouxe o conceito de neurocepção, um processo inconsciente pelo qual o sistema nervoso avalia continuamente se o ambiente, as pessoas e as sensações internas representam segurança, perigo ou ameaça.

Essa avaliação acontece antes mesmo de termos consciência dela.

Por isso, alguém que passou por experiências de trauma pode se sentir em alerta diante de situações cotidianas: uma determinada voz, um tom de crítica, um ambiente fechado, uma expressão facial, um cheiro ou até uma sensação corporal podem ser interpretados pelo organismo como sinais de ameaça, mesmo que racionalmente a pessoa saiba que não está em risco.

Não se trata de falta de controle, fraqueza ou exagero. Trata-se de um sistema de proteção que aprendeu a permanecer ligado.

Quando a sobrevivência continua acontecendo no presente

Um dos princípios fundamentais da Somatic Experiencing® é que o trauma não está apenas no evento vivido, mas na forma como o sistema nervoso ficou organizado após aquela experiência.

Em muitos casos, a energia mobilizada para lutar ou fugir permanece incompleta no organismo, mantendo padrões de tensão, hipervigilância, ansiedade ou, em outros casos, estados de desligamento, cansaço extremo, falta de energia e sensação de desconexão.

O corpo continua agindo como se ainda precisasse se defender.

É por isso que muitas pessoas dizem frases como: “Eu sei que não há motivo para ter medo, mas meu corpo não obedece.” “Minha mente quer relaxar, mas eu não consigo.” “Estou sempre esperando que algo ruim aconteça.”

Esses relatos mostram a diferença entre entender a segurança intelectualmente e sentir segurança fisiologicamente.

O caminho de volta à sensação de segurança

Na Somatic Experiencing®, o processo terapêutico busca ajudar o sistema nervoso a recuperar sua capacidade natural de autorregulação.

Isso acontece por meio do desenvolvimento da consciência corporal, da percepção dos sinais internos, da ampliação dos recursos de segurança e da aproximação gradual das sensações relacionadas à experiência traumática, sempre respeitando o ritmo do organismo.

Pequenas experiências de conforto, apoio, presença e conexão podem enviar ao cérebro uma nova mensagem: “Agora é diferente. Neste momento, há segurança.”

Com o tempo, o corpo pode aprender a sair do estado constante de defesa e recuperar maior flexibilidade. A respiração se torna mais livre, a tensão diminui, a capacidade de estar presente aumenta e os relacionamentos podem se tornar mais seguros e espontâneos.

Reconectar-se com o próprio corpo é parte da cura

Muitas pessoas tentam superar suas dificuldades apenas pela compreensão racional, perguntando a si mesmas: “Por que eu ainda me sinto assim?”. Embora entender a própria história seja importante, frequentemente a transformação também precisa envolver o corpo, pois foi nele que o estado de alerta ficou registrado como uma memória de sobrevivência.

O corpo que aprendeu a se proteger pode, gradualmente, aprender novamente a se sentir seguro.

E talvez esse seja um dos aspectos mais profundos do processo terapêutico: deixar de viver constantemente preparado para o perigo e redescobrir a possibilidade de estar verdadeiramente presente na própria vida.

Glaida Pires
Terapeuta somática, fisioterapeuta e osteopata.

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