O que significa escutar o corpo no processo terapêutico

Um convite para perceber sensações, respostas internas e sinais corporais como parte do cuidado terapêutico.

Pessoa em prática tranquila de respiração e consciência corporal

Em nossa cultura, fomos ensinados a compreender a nós mesmos principalmente através dos pensamentos e das emoções nomeadas em palavras. Perguntamos: “O que estou pensando?”, “Por que estou sentindo isso?” ou “Qual é a causa do meu sofrimento?”. Embora essa investigação seja importante, muitas vezes existe uma dimensão igualmente fundamental que permanece esquecida: a linguagem do corpo.

Na perspectiva da Somatic Experiencing® (SE), abordagem desenvolvida por Peter Levine, o corpo não é apenas o local onde os sintomas aparecem. Ele é um organismo inteligente, que registra experiências, responde ao ambiente e carrega informações importantes sobre nossa história de vida, nossos recursos internos e nossos mecanismos de proteção.

Escutar o corpo no processo terapêutico significa desenvolver a capacidade de perceber suas mensagens de forma cuidadosa e sem julgamento. Isso inclui notar uma alteração na respiração, uma tensão nos ombros, um aperto no peito, um frio no abdômen, um tremor, uma sensação de calor ou até mesmo um impulso de se afastar, se proteger ou se aproximar de algo.

Essas respostas corporais estão profundamente relacionadas ao funcionamento do sistema nervoso autônomo, responsável por regular nossos estados de segurança, mobilização e proteção. A partir da nossa neurofisiologia, o organismo está constantemente fazendo uma leitura do ambiente, um processo chamado neurocepção, avaliando, muitas vezes fora da consciência, se estamos em segurança ou em perigo.

Quando passamos por situações de grande estresse ou eventos traumáticos, nem sempre o sistema nervoso consegue completar naturalmente suas respostas de defesa. Parte da energia mobilizada para lutar, fugir ou se proteger pode permanecer ativada no organismo, manifestando-se posteriormente como ansiedade constante, hipervigilância, dificuldades de relaxar, dores físicas, sensação de desconexão do próprio corpo ou estados de congelamento e falta de energia.

Por isso, na Somatic Experiencing®, não se busca apenas contar a história do que aconteceu, mas também perceber como a experiência está sendo vivida no corpo no momento presente. O terapeuta auxilia o paciente a desenvolver uma atenção gradual às sensações corporais, respeitando o ritmo do sistema nervoso e fortalecendo a percepção de segurança.

Esse processo não significa reviver o sofrimento ou mergulhar novamente na dor. Pelo contrário: significa criar pequenas experiências de regulação, permitindo que o organismo encontre novos caminhos de equilíbrio. Através de recursos como a orientação para o ambiente, a percepção das sensações agradáveis ou neutras e o movimento entre estados de ativação e tranquilidade, o sistema nervoso pode recuperar sua capacidade natural de autorregulação.

Escutar o corpo é, portanto, um processo de reconexão. É aprender a perceber os sinais sutis que, muitas vezes, foram ignorados durante anos em nome da adaptação, da produtividade ou da necessidade de continuar seguindo em frente.

Quando o corpo finalmente encontra um espaço seguro para ser ouvido, ele deixa de ser apenas o lugar onde carregamos nossas dores e passa a ser também um caminho para a cura, a presença e uma relação mais profunda conosco mesmos.

Glaida Pires

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